O sol embeleza a tarde de sexta-feira, 22 de junho, mas não aplaca o frio em Bagé, cidade da região da campanha do Rio Grande do Sul, próxima à fronteira com o Uruguai. O inverno está apenas começando e costuma ser rigoroso na região. As baixas temperaturas, no entanto, não diminuem o público na festa junina do Centro do Idoso do município, que desde o começo da tarde começa a receber, às dezenas, os habituais frequentadores das atividades desenvolvidas ao longo da semana – de cursos de informática a aulas de tai chi chuan.

A festa é de São João, mas o baile se anima ao som da tradicional música gaúcha. Assim que a banda começa a tocar, o pequeno salão é rapidamente tomado pelos casais. Em maioria, as mulheres também formam pares, porque ninguém quer ficar parado. Mesmo quem tem alguma dificuldade para caminhar não se cansa de dançar várias músicas em sequência.

A confraternização reúne pessoas de origens sociais diferentes, mas histórias parecidas. Jussara Trindade, 65 anos, se considera uma fundadora do Centro do Idoso. Participou das primeiras atividades realizadas pela Prefeitura de Bagé antes mesmo da construção do prédio, há cinco anos, e tem certeza que foi isso que a tirou da depressão.

Professora de Estudos Sociais durante 24 anos na Escola Municipal Professor Miranda, Jussara não se acostumou com a ideia de interromper as atividades e se afastar dos alunos, os quais tratava como filhos. “Antes mesmo de me aposentar, já entrei em depressão”, conta. “A gente, que é professora, quando perde o contato diário com os alunos e colegas, sofre muito.”

No Centro do Idoso, Jussara se encontrou. Participa do grupo reflexivo, onde compartilha suas experiências e inquietudes. Vai a quase todas as excursões: até Buenos Aires já pôde conhecer. Frequenta as aulas de ginástica, dança e informática – que a ajudaram a ingressar no Facebook e reencontrar seus alunos. “Sempre fui professora, agora sou uma estudante”, se perte.

Para Rosa Maria Fernandes da Silva, 88 anos, e Herber Lopes Pires, 73, a assistência proporcionada pela Secretaria Municipal de Políticas Públicas para a Pessoa Idosa (Semppi) representa a possibilidade de viver a velhice com dignidade. Eles são frequentadores da Casa Dia, localizada no bairro São Bernardo, na periferia da cidade, que oferece assistência e atividades para idosos semidependentes cujos familiares ou responsáveis não têm condições de estar com eles durante o dia. É uma forma de evitar que os idosos sejam levados para asilos, o que é considerado uma alternativa apenas em último caso.

Na Casa Dia, o foco é o atendimento a idosos semidependentes, com autonomia limitada para ficarem sozinhos em casa, como alternativa para evitar o asilamento. “Se podemos oferecer esse respaldo para a família trabalhar com tranquilidade, fazemos o possível para evitar o asilamento. Toda a nossa luta na secretaria é para garantir os direitos e ampliar as conquistas das pessoas idosas”, afirma a secretária Silvana Caetano, titular da Semppi desde sua criação, em 2009.

Idosos no campeonato de kung fu

De manhã cedo, uma van passa na casa de doze idosos – o limite do veículo – e os leva para a Casa Dia, onde fazem as refeições e desenvolvem atividades persas. Uma vez por semana, participam de uma atividade no Centro do Idoso, como a festa junina. No final da tarde, a van os leva de volta, mas só os deixa em casa se o responsável já tiver retornado do trabalho.

“Minha filha sai para trabalhar durante o dia, e em casa me sentia muito só. Aqui me sinto muito bem, faço serviços manuais, croché, tapetes”, conta Rosa Maria. Em dois anos como frequentadora da Casa Dia, se acostumou com o carinho das funcionárias e com a amizade entre os colegas de terceira idade. “Somos uma verdadeira irmandade”, diz a moradora do Bairro Popular. Herber, que também mora com a filha, frequenta a Casa Dia há cerca de dois meses. Mais calado, se resume a dizer: “Estou gostando muito daqui”.

As histórias de Jussara, Herber e Rosa Maria representam o resultado prático de uma política que faz de Bagé referência no respeito à população idosa. É o único município do Rio Grande do Sul e um dos poucos no Brasil a manter uma secretaria específica de políticas públicas para a pessoa idosa. A prioridade dada a essa população, estimada em 15 mil no município de 116 mil habitantes, levou Bagé a ser certificada como Cidade Amiga do Idoso pelo governo gaúcho. E vem se tornando exemplo em um país que, nas próximas décadas, terá mais idosos e uma estrutura etária semelhante à de países da Europa.

“O Brasil ainda não está preparado para atender às demandas da população idosa. Não temos uma boa acessibilidade de modo geral, os idosos não têm a quem recorrer. Aqui em Bagé somos referência para todo o Rio Grande do Sul”, destaca Silvana.

Prioridade à pessoa idosa

A prioridade dada à população idosa pelo prefeito Dudu Colombo (PT) vem de seus três mandatos como vereador, antes de assumir a prefeitura, substituindo o também petista Fernando Mainardi após duas gestões consecutivas. No esteio da Campanha da Fraternidade de 2003, que tinha como tema o respeito à população idosa, o então vereador foi autor de uma lei municipal que criava o Conselho, o Fundo e a Conferência Municipal dos Direitos do Idoso. Na primeira conferência, realizada em 2008, eram esperadas cerca de duzentas pessoas: apareceram quinhentas. No mesmo ano, foi construído o Centro do Idoso, com capacidade para atender 250 pessoas. No primeiro mês, quinhentos idosos se inscreveram para participar das atividades. O interesse pelo tema na cidade e a participação de idosos nas discussões levaram o prefeito Dudu Colombo, eleito em 2008, a criar uma secretaria que pudesse concentrar e articular todas as políticas voltadas a essa população.

Desde a criação do Centro do Idoso, 2.200 pessoas já se cadastraram. O local conta com uma série de atividades que primam pela autonomia e saúde da população idosa. “É um espaço de lazer, convivência, promoção da saúde e prevenção das doenças”, resume a secretária Silvana.

As atividades não ficam limitadas aos tradicionais cursos de costura e pintura. Dança, teatro, canto, ioga, capoeira e tai chi chuan estão entre os grupos em desenvolvimento. Os idosos também fazem cursos de idiomas e informática, um dos mais procurados. Oficinas e palestras com profissionais das áreas de saúde reforçam a promoção do bem-estar dos participantes. O Centro do Idoso oferece ainda grupos de reflexão e de apoio a pessoas que cuidam de idosos com Alzheimer e Parkinson. Também serão instaladas uma academia de ginástica e uma sala de musculação no local. Os asilos existentes em Bagé, por sua vez, contam com um grupo de apoio articulado pela secretaria.

Até mesmo uma versão local do Estatuto do Idoso a cidade tem. O material é utilizado em campanhas de conscientização. E, em 2011, sediou o I Encontro Internacional das Pessoas Centenárias – Bagé tem vinte pessoas acima dos 100 anos de idade.

Articulação de direitos

Além do Centro do Idoso e da Casa Dia, a Semppi deve abrir ainda em 2012 a Casa de Passagem para o Idoso Vítima de Violência e Abandono, mais um espaço de assistência e promoção de direitos. A secretaria, no entanto, não atua somente com espaços físicos destinados a assistência e atividades. Mesmo com uma equipe pequena, baixo orçamento e poucos recursos – são dois veículos usados, uma van e um ônibus doado pela Receita Federal –, a Semppi trabalha como promotora e mediadora de ações e ponto de referência para a população idosa. “Articulamos todas as políticas que podem ser acionadas em benefício do idoso”, diz Silvana.

Um exemplo prático: na segunda Conferência Municipal do Idoso, uma das principais reclamações dos participantes era em relação ao desrespeito à população idosa no transporte coletivo. O que fez a secretaria? Capacitou duzentos funcionários das empresas do transporte público, discutindo o Estatuto do Idoso e levando os idosos para falarem sobre suas principais dificuldades. Paralelo a isso, uma campanha de conscientização foi realizada nos ônibus, bancos, restaurantes. O resultado foi extremamente positivo.

Projeto Vô Legal para idosos em situação de vulnerabilidade

Outro projeto desenvolvido pela secretaria é o Vô Legal, que faz uma busca ativa de idosos em situação de vulnerabilidade. “Temos toda uma população idosa que é invisibilizada. Gente que não consegue sair de casa, que não consegue chegar ao Centro do Idoso, que às vezes está negligenciada pela família ou em situação de autonegligência”, explica Silvana. Com recursos do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) e em parceria com a Secretaria de Assistência Social do município, a Semppi localiza esses idosos e os auxilia na resolução de pendências jurídicas, financeiras ou de saúde, entre outras. Esse trabalho será incrementado em 2013, quando alunos das escolas municipais, que por lei têm no currículo o tema da pessoa idosa, farão pesquisas nos bairros para identificar quem são os idosos, quais suas dificuldades, e propor ações.


Daniel Cassol é jornalista