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Resistência de Longa Duração

No século XVI e XVII o continente Africano teve uma grande inserção na economia da Europa a partir da mercantilização do tráfico humano de escravos. No conjunto, o tráfico para o mundo árabe e para as Américas foi responsável pela retirada de cerca de 20 milhões de seres humanos e isso contribuiu enormemente para a estagnação demográfica, civilizatória e econômica do continente africano.

Entre os séculos XVI ao XIX, quase cinco milhões de homens e mulheres negras foram transplantados para o Brasil como instrumento de trabalho forçado na lavoura, na mineração, no comércio e em todos os tipos de serviço urbano.

Os livros de viajantes estrangeiros, que aqui chegaram, a exemplo de Auguste de Saint-Hilaire, Jean Baptiste Debret e Johann Moritz Rugendas descrevem a imagem da população negra sempre em situação de trabalho forçado ou abandonados nas vilas e povoados sempre dançando e cantando.

Essa história do negro no Brasil foi sempre muito mal contada. A história oficial ao insistir naquelas cenas tratou de ressaltar apenas a contribuição cultural africana com o intuito de destacar a mentalidade benevolente e/ou paternalista do período escravocrata. As linhas historiográficas e/ou sociológicas, sob o véu da neutralidade cientifica, ressaltavam quase exclusivamente as categorias, conceitos, fontes históricas, noções das relações de trabalho e de produção explicativas do sistema de produção comprometidas com o ponto de vista do opressor e pouco falava do sujeito subalternalizado nessa historia, ou seja, pouco se falou sobre a resistência negra no período colonial do sistema escravocrata que ancorou o capitalismo no Brasil.

No entanto, homens e mulheres negras encontraram inúmeras formas de resistência destinadas a confrontar a dominação e opressão do sistema escravocrata: o banzo; o assassinato dos senhores de terras, a fuga isolada; o aborto praticado pela mulher escrava; o suicídio; o sincretismo religioso, as guerrilhas, revoltas e insurreições urbanas (Alfaiates, Balaiada, Cabanagem, Revolta dos Búzios, Farroupilhas, Revolta dos Malês, Revolta da Chibata, dentre outras ) e os quilombos .

Os quilombos se destacaram por constituírem a mais estruturada forma de organização africana em território brasileiro. Os povos de origem Bantu que povoaram centro e o sul da África através de migrações constantes, que abriram a floresta equatorial africana, são os que instituíram os Kilombos – sociedades guerreiras e iniciáticas. Este modelo de sociedade quilombola foi recriada no Brasil no século XVI, em resposta à violência da escravidão e retroalimentou a condição humana, a vivencia livre e comunitária, no contexto adverso do sistema escravocrata.

No Brasil os quilombos foram povoados por homens e mulheres negras, povos indígenas e brancos pobres – que estruturaram leis comunitárias e forjaram a mais avançada e sofisticada organização de resistência negra no período colonial. Um modelo resistência herdada da civilização africana, berço da humanidade, e por isso de longa duração.

O Quilombo é memória, que não acontece só pros negros, acontece prá nação. Ele aparece, ele surgiu nos momentos de crise da nacionalidade. A nós não cabe valorizar a história. A nós cabe ver o continuum dessa história… Porque ZUMBI queria fazer a nação brasileira, já com índios e negros integrados dentro dela. Ele quer empreender um projeto nacional, de uma forma traumática, mas não tão traumática quanto os ocidentais fizeram, destruindo culturas, destruindo a história dos povos dominados1 (NASCIMENTO,B. 1988).

A Resistência negra é um fenômeno presente na trajetória histórica da população negra escravizada no Brasil através de reação individual e coletiva ao ato cruel de negação física e cultural da humanidade de homens e mulheres negras.


1. NASCIMENTO, Beatriz Maria do. ORI – Um filme de Raquel Gerber. Brasil. 1988[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row]