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Línguas Africanas no Brasil

O tráfico transatlântico de africanos na condição de escravos trouxe compulsoriamente para o Brasil quase cinco milhões de negros e negras, que tiveram que lidar com o desconhecido e o arbitrário. Foi nesse contexto, numa situação concreta e desfavorável, que essa população teve que se reinventar, recorrendo a negociações que se constituíam cotidianamente ou, ainda muitas vezes, em formas de resistência.

Para podermos compreender a participação do povo negro na formação brasileira, três dimensões são de fundamental importância: a história, a memória e as práticas culturais. A memória, ao lado da identificação com certos valores culturais, aponta fortes sinais que vêm pautando os elementos que compõem a participação da população negra na cultura brasileira, com toda a multiplicidade que ela carrega. Um desses elementos é a preservação dos elementos de línguas nativas nas práticas culturais de origem africana.

Não podemos perder de vista que, no Brasil, muitas expressões culturais negras estão fundamentadas em um princípio de resistência e de não submissão. A resistência se dá diante da expropriação de qualquer direito que a população negra viveu ao longo da História.

Estudiosos das línguas africanas faladas no Brasil, como Yeda Pessoa de Castro e Nei Lopes, chamam atenção para esse aspecto pouco estudado da cultura brasileira. Nas religiões de matriz africana, em rituais e cânticos guardam-se e recriam-se línguas, a exemplo do yorubá no candomblé. No falar cotidiano, presume-se que há maior influência dos povos subsaarianos, dos grupos étnico-linguísticos denominados bantos através de suas línguas, entre elas o Quicongo, o Umbundo e Quimbundo, que incorpora, por exemplo, Angola, Congo e Moçambique, para citar regiões de onde saiu um fluxo importante de africanos para o Brasil.

É assim que a preservação e reinvenção da língua falada por negros africanos escravos transplantados e seus descendentes, mesmo perseguida pelas autoridades por subversiva e discriminada pela sociedade racista por selvagem, tornou-se um dos principais elementos da resistência cultural negra ao longo dos séculos no Brasil.

Aprender português era uma estratégia contra as dificuldades da escravidão, mas a visão de mundo dos negros sobrevivia nas línguas maternas africanas. As línguas oriundas da África eram usadas tanto em momentos de trabalho como nas diferentes ocasiões em que africanos e descendentes estivessem reunidos. Muitos africanos que pertenciam a etnias diferentes entravam em contato — e aprendiam a comunicar-se — já nas travessias para os portos de embarque e ao longo da viagem nos navios. Isso era facilitado pelas semelhanças de algumas das línguas da família banto. Além das próprias línguas maternas, eles poderiam ainda usar línguas francas (línguas comuns) para trocar idéias, praguejar contra o senhor ou lembrar-se da terra. Essa comunicação guardava um grande potencial para a autonomia dos escravos, incluindo formas de solidariedade e de resistência ao regime escravista. Conservar as línguas era crucial para aqueles homens e mulheres. Significava manter, em meio à situação adversa e muitas vezes violenta da escravidão, o próprio conhecimento que tinham do mundo, sua forma de olhar e sentir, sua identidade cultural, algo que lhes pertencia.” (STOLZE, I., 2007).

No meio urbano ou rural as comunidades tradicionais dos terreiros de candomblé, umbanda, tambor de mina, congados, irmandades, emergem como espaços litúrgicos, culturais e de organização sócio-política, nhttps://www.enfpt.org.br/node/122uma espécie de “continuum” africano na diáspora. São expressivas manifestações de resistência cultural e religiosa que simbolizam o resgate de um elo perdido, o momento “sagrado” de reencontro dos negros da diáspora afro-brasileira com a Mãe África, com seus deuses e santos.

Já no século XVIII, a devoção à Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora Aparecida, São Benedito, Santa Efigênia, Nossa Senhora das Mercês e outros santos negros de inspiração católica constituíram as Irmandades e Reinados do Rosário e Irmandades dos Homens Pretos que se estabeleceram em Minas Gerais e outros estados brasileiros. Essas irmandades alcançaram singular importância para o espírito religioso da população que congregava as mais variadas categorias sociais reunidos com suas guardas e ternos de Congo, Moçambique, Candombes, Catopés, Marujos, Caboclos, Vilão, Caiapós e Tapuiada, ponto máximo nas procissões, cujos desfiles guardam fundamentos religiosos afro-católicos.

Na esteira do processo social de organização da população que acompanhou a expansão da mineração, surgiram diversas irmandades ou confrarias religiosas. Além dos objetivos religiosos que naturalmente orientavam seu funcionamento, essas irmandades negras mostrar-se-iam como um eficiente organismo na prestação de assistência material e espiritual junto às populações pobres que as integravam.

As religiões de matriz africana, ao longo de sua existência, vêm resistindo às mais duras formas de violência e depredação do seu espaço material e simbólico. As comunidades de terreiros são os espaços de manifestação do sagrado e culto à tradição dos orixás, inquices e voduns, emergem como espaços litúrgicos, culturais e de organização social e política, ao mesmo tempo em que enfrentam investidas de intolerância religiosa efetuada pela polícia no passado e hoje, pelos ataques cotidianos das igrejas eletrônicas.

Outra marca da resistência cultural é traduzida pela musicalidade e o canto, pelo corpo e a dança, pelo teatro e poesia, pela rica plasticidade que envolve o fazer cultural dos músicos, artistas plásticos e poetas, legítimos arautos e Griôs de uma tradição cultural autêntica, a exemplo de Antonio Francisco Lisboa “o Aleijadinho”, Grande Otelo, Lea Garcia, Tereza Santos, Solano Trindade, Chiquinha Gonzaga, Pixinguinha, Cartola e muitos outros.

Hoje, o samba é uma grande manifestação musical que arrasta multidões. Com a sua sedução, o samba atua na formação de base da cultura brasileira. Esse ritmo, pé no chão, que saiu dos terreiros e dos fundos dos quintais, entrou pela porta da cozinha da casa-grande, desceu as ladeiras de barro das favelas, subiu as escadarias de mármore dos teatros municipais das grandes cidades, é o retrato musical do Brasil e a nossa mais forte identificação cultural diante de todos os povos6. (CARDOSO, M.2003).

O samba, a capoeira, o soul, o jazz, o blues, o reggae, o ijexá, o afoxé, o bloco-afro, o carnaval, o funk, o suing, o merengue, a rumba, a escola de samba, o pagO tráfico transatlântico de africanos na condição de escravos trouxe compulsoriamente para o Brasil quase cinco milhões de negros e negras, que tiveram que lidar com o desconhecido e o arbitrário. Foi nesse contexto, numa situação concreta e desfavorável, que essa população teve que se reinventar, recorrendo a negociações que se constituíam cotidianamente ou, ainda muitas vezes, em formas de resistência.

“As elites racistas procuram de todas as formas impedir, distorcer e negar a visão de mundo que sustenta a cultura negra, que entra em conflito e que pode, colocar em risco os seus privilégios raciais e seu poder. Por isso é que tratam cultura de todo um povo como folclore, de cultura marginal urbana, menor, a qual se patrocina ou se assiste com a postura de superioridade. Circunscreve-se a cultura negra à culinária, ao libidinoso, ao lúdico e ao ritual religioso, às externalidades. (…) A cultura negra só é absorvida quando seus aspectos fundamentais estão desreferenciados da história de opressão e lutas do povo negro, dentro e fora da África. A adoção de alguns símbolos negros como marcas da cultura nacional cumpre um papel político importante, na medida em que encobre o racismo e previne a emergência de conflitos, oferecendo ao negro a ilusão de participar na imagem da sociedade brasileira. (…) Não se admite que ao longo da história da humanidade o povo negro contribua para a cultura universal, que transcende a todos os povos, seja apropriada pelos brancos e a sociedade, sem a revelação de suas origens.(…) Enfim, a violência racial pela via da manipulação política da cultura negra, expressa-se sem máscaras, quando o “reconhecimento” da importância do negro no espaço da Cultura, se dá em troca da sua subordinação e de seu alijamento das esferas de decisão da sociedade.”7. (MNU, 1990).


6. FERREIRA, Ednéia Lopes; SANTOS, Elzelina Dóris dos; CARDOSO, Marcos Antônio. Contando a História do Samba. Belo Horizonte, Mazza Edições, 2ª edição, 2003.

7. MNU – Movimento Negro Unificado. Programa de Ação. Belo Horizonte, IX Congresso Nacional do MNU, mimeo, 1990.