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A Costa de Angola

No antigo reino do Congo, ao norte do atual território de Angola, as relações entre os portugueses e os líderes das sociedades africanas da região, resultaram na configuração de um estado afrocatólico que se estabeleceu entre os séculos XVI e XX.

Mais ao sul, os portugueses que buscavam ouro, prata, cobre e outros metais preciosos, e em especial, dominaram o processo do comércio de escravos, pois já frequentavam a costa da África desde o início do século XVI, eles conseguiram penetrar no território africano, construindo fortalezas e minando a resistência dos povos africanos ao estabelecer relações amistosas, belicosas e alianças com as lideranças dos reinos e dos povos originários.

Entre as alianças cabe destacar o apoio dos grupos Imbangalas, povos guerreiros e nômades que viviam de saquear pastores e agricultores e quem roubavam mulheres e crianças para serem iniciadas na arte militar em espaços fortificados. O ritual de iniciação que marca o processo de iniciação no acampamento guerreiro a transformação de um jovem de uma aldeia africana num guerreiro Imbangala recebeu o nome de kilombo.  Ou seja, Quilombo, no Brasil ou nas Américas, já é uma instituição africana em si mesma e tem o mesmo significado na África Central.

O primeiro foco de colonização se deu a partir de São Paulo de Luanda, onde em 1575, Paulo Dias de Novaes, escolhido donatário pelo rei de Portugal, que se dispôs a dominar aquelas terras distantes onde reinavam chefes africanos desembarcou como colono, isto é, como agente da colonização. O colono é aquele que assume a tarefa de colonizar a terra ocupada pelo reino colonizador, assumindo características diferentes conforme as especificidades da ação colonizadora de uma ou outra metrópole, em um ou outro lugar. No caso de Portugal, os primeiros colonos foram os nobres que receberam grandes extensões de terra, que deveriam tornar produtivas, de forma a cobrir o investimento feito, movimentar a economia colonial e pagar as taxas devidas à Coroa portuguesa.

Para fixar e dominar o território, estes colonos traziam construtores e material para construir uma fortaleza e uma igreja; agricultores e sementes, pastores e animais, soldados e armas de fogo, cavalos e novas técnicas. Munidos com a autoridade do rei de Portugal, em nome do qual ofereciam aliança política e uma série de novidades para os chefes locais, dos quais exigia cumplicidade, fidelidade e diversas formas de retribuição e parceria.

Por meio da troca de favores ou da guerra, os portugueses ampliaram a sua atuação na região central do continente africano, minando a resistência e onde as guerras predominaram por um século aproximadamente – de 1580 a 1680, após a morte da Rainha Nzinga Mbandi do reino angolano de Matamba.

É certo que o principal interesse dos portugueses em forçar a penetração pelos territórios do interior do continente, além de contrapor a expansão do islamismo, era o de encontrar prata e ouro, que foi substituído pela necessidade de se fazer prisioneiros que eram vendidos como escravos aos traficantes que fincaram entrepostos nos portos de Luanda e Benguela. Quando não arrasavam as aldeias, saqueavam os celeiros e capturavam os seres humanos, exigiam que os chefes se tornassem seus súditos, através da conversão ao cristianismo e o pagamento de tributos na forma de alimentos e, sobretudo, escravos.  No final do século XVII, São Paulo de Luanda era a capital do Reino Português de Angola, uma típica cidade colonial portuguesa, com o forte, o colégio dos jesuítas, o quartel eu abrigava a guarnição militar, a casa do governador e outros edifícios da administração.

Se até o século XVII os portugueses se envolveram diretamente nas guerras para a produção de escravos, após este período, alguns grupos africanos se dedicaram a capturá-los, penetrando cada vez mais no interior do continente, para abastecer o tráfico transatlântico. Alguns reinos se fortaleceram com o comércio e com as alianças com os europeus brancos e se especializaram em guerrear com povos vizinhos, que ao serem vencidos eram escravizados ou subordinados e tinham que pagar tributos sob a forma de escravos. O reino de Matamba, após a heróica resistência da Rainha Nzinga Mbandi e o reino de Cassanje, são exemplos de reinos assim estruturados.

Enfim, a nova sociedade angolana é fruto da presença colonial portuguesa e das tradições africanas, da relação entre ambundos, Imbangalas, congos, ovimbundos, lundas, lubas, quiocos, entre si e com os portugueses. A consolidação da dominação colonial aumentou e intensificou o volume de seres humanos escravizados, vendidos para os traficantes que abasteciam as sociedades americanas de mão-de-obra. Enquanto na América, os europeus mantinham colônias, no Brasil, os portugueses mantinham uma colônia agrícola e mineral (durante o período da exploração do ouro e do diamante), em Angola eles mantinham uma colônia dedicada principalmente à produção e comercialização de escravos.  Vale dizer que a resistência angolana perdurou por mais de 300 anos, desde a chegada dos portugueses até 1975, quando foi vitoriosa a luta de libertação de Angola, com expulsão dos colonizadores portugueses do poder, conduzida, entre outras organizações, pelo MPLA – Movimento pela Libertação de Angola, dirigida pelo revolucionário e primeiro presidente, o poeta Agostinho Neto.

Quando o tráfico atlântico de escravos foi definitivamente interrompido nas últimas décadas do século XIX, os interesses europeus na África já eram outros, buscavam matérias primas para as indústrias, principalmente inglesas, que consolidava a revolução industrial, e os seres humanos africanos que não podiam mais ser vendidos a comerciantes brancos europeus passaram a trabalhar nos campos produtores de matérias primas. Neste momento inicia-se o processo de ocupação colonial da África por algumas nações européias, entre elas, Inglaterra, França, Holanda, Bélgica e Itália: em especial, consolidado após o processo de roedura e retalhamento do continente africano, realizado pelas potências ocidentais na Conferencia de Berlim em 1885.