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O remédio e o medo
 
Publicado em 01 de outubro de 1989.
 
A triste experiência da Argentina e o retumbante fracasso do Plano Verão colocaram a hiperinflação no centro do debate econômico. O temor de que uma explosão dos preços possa conturbar a sucessão presidencial acabou amadurecendo uma das poucas unanimidades nacionais: a hiperinflação não convém a ninguém. Se há consenso em relação aos perigos que uma completa desorganização econômica significaria para nossa frágil democracia, reina grande confusão sobre o que se pode e deve fazer para evitá-la. Neste texto discutiremos as raízes do problema inflacionário brasileiro; a especificidade da recente aceleração dos preços; e o que se pode fazer para impedir maior deterioração da situação e estabilizar o sistema de preços.
 
Na década de 80 o processo inflacionário brasileiro esteve fortemente condicionado pela crise da economia mundial. A paralisação do fluxo de empréstimos nos bancos privados, a significativa elevação nos preços do petróleo e o forte aumento nas taxas de juros tiveram um efeito devastador na economia, provocando estrangulamento cambial e exacerbando as incertezas cambiais. Além do impacto direto sobre a formação de preços, através de seus efeitos sobre os custos de produção e as expectativas dos capitalistas, a instabilidade do sistema monetário internacional e a necessidade de promover grandes transferências de recursos ao exterior tiveram repercussão bastante negativa sobre a capacidade das autoridades de fazer política monetária e sobre todo o esquema de financiamento da economia brasileira, que, historicamente, teve no endividamento externo um dos eixos básicos.
 
Ao lado dos condicionantes externos, a inflação foi profundamente afetada pelas políticas econômicas promovidas pelo governo brasileiro desde meados da década de 70, cujos objetivos subordinaram-se totalmente às imposições dos credores internacionais e dos grandes grupos de interesses internos. Isto significou absorver perdas do setor privado, assumir sua dívida externa, apoiar setores produtivos ineficientes, sustentar uma ciranda financeira ancorada em títulos públicos e reorientar a produção interna para atender à demanda externa, de modo a viabilizar crescentes transferências de recursos reais ao exterior com o propósito de permitir o pagamento, com recursos próprios, de uma proporção cada vez maior dos juros da dívida externa.
 
Tais fatores levaram à acumulação de um enorme estoque de dívidas externa e interna, provocando um completo esgotamento dos dois pilares fundamentais do padrão de financiamento da economia: a mobilização de recursos através da dívida externa e da intermediação do setor público. Enquanto não houver uma profunda reforma financeira, os mecanismos de endividamento, ao invés de potencializar a acumulação de capital, funcionarão como um peso morto que imobiliza a economia como um todo e o setor público – principal devedor externo e interno – em particular. 
 
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