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Formação e Memória

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A evolução das sociedades, na segunda metade do século XX, elucida a importância do papel que a memória coletiva desempenha. (...) A memória coletiva faz parte das grandes questões das sociedades desenvolvidas e das sociedades em vias de desenvolvimento, das classes dominantes e das classes dominadas lutando todas pelo poder ou pela vida, pela sobrevivência e pela promoção. (Jacques Le Goff)

Essa constatação do historiador francês Jacques Le Goff nos faz entender que a memória coletiva tem sido, particularmente depois do advento do capitalismo, objeto de intensa disputa de significados e interpretações. Significados que, ao longo do tempo e sob a forma da ideologia, ocultaram o real ou, como pensamento crítico, se ocuparam em desvelá-lo.

Nos últimos vinte anos, o processo sem precedentes de globalização econômica e cultural, em função particularmente da internet, associado à hegemonia neoliberal instauraram uma noção de tempo e espaço aprisionada ao presente, ou seja, como uma sucessão de fatos sem nexo e sentido, cujo objetivo é a aniquilação da memória e a consagração do fim da história.

A esse respeito Marilena Chauí nos diz que:

... A ideologia pós-moderna é a comemoração entusiasmada dessa dispersão e fragmentação do espaço e do tempo, dessa impossibilidade de distinguir entre aparência e sentido, imagem e realidade, do caráter efêmero e volátil de nossas experiências. Ela comemora o que designa de “fim da narrativa”, ou seja, dos fundamentos do conhecimento moderno ou a afirmação moderna de idéias como as de racionalidade, identidade, causalidade, finalidade, necessidade, totalidade e verdade, e afirma ser um mito a idéia da historia como movimento de contradições e de mediações em direção à emancipação. Em outras palavras, toma a fragmentação econômica e social como um dado positivo e último; toma a ausência de sentido temporal como elogio da contingência e do acaso; transforma a privatização da existência em elogio da intimidade e do desejo e reforça a despolitização da sociedade.

A ideologia pós-moderna, ao reduzir o tempo ao presente, em verdade justifica e consagra a busca de lucro sem limites e institui a competição como valor supremo das sociedades.

O documentário Trabalho Interno mostra de maneira inequívoca a base material dessa lógica que conduziu os EUA à crise de 2008 e conduzem agora a Europa a uma crise extraordinária, duas faces da crise do próprio capitalismo.
Para a esquerda e, particularmente para o PT, a luta por justiça social,  pela superação das desigualdades e afirmação de direitos sociais universais - num contexto mundial em que as orientações neoliberais seguem insistindo nas mesmas  concepções predatórias que só têm causado miséria, exclusão, violência e xenofobia em referência para solucionar a crise – não pode se tornar hegemônica se não houver um movimento teórico e político que se explique as transformações em curso no Brasil e na América Latina, quais os seus horizontes em oposição aqueles  É preciso  disputar o significado dos processos em curso com os  meios de comunicação comprometidos com essa lógica. Par desvelar  as contradições das formas atuais do capitalismo em escala internacional é preciso recuperar a história e a memória.

Dar voz às várias memórias, favorecer sua interpretação e elucidar as contradições dos movimentos da história são fundamentais para que possamos formular perguntas ao passado como diria Marc Bloch, outro historiador francês. Formular perguntas e buscar respostas a partir dos problemas e questões do presente.

Para o PT esse movimento é necessário para que os interesses imediatos e pragmáticos não prosperem em detrimento do projeto de desenvolvimento que objetiva a emancipação social, cultural e a liberdade das pessoas. É por essa razão que o Portal da Escola Nacional de Formação do PT, com o mesmo espírito que orientará os cursos da Escola, de acordo com o Plano Nacional de Formação, buscará progressivamente oferecer indicações de livros, artigos e material audio visual (remetendo inicialmente aos acervos dos portais da Fundação Perseu Abramo e do PT) que contribuam para que noss/aos filiada/os e militantes se sintam desafiados a conhecer a história de nosso país, da América Latina, a história do capitalismo e da esquerda em nível mundial e refletir sobre  as principais questões da conjuntura no Brasil e no mundo.

Ao mesmo tempo, o próprio Portal, em sua área restrita, permitirá o registro e a construção da memória de nossa experiência, de sorte a permitir a reflexão e a elaboração como práticas permanentes e sistemáticas em nosso partido. 

Como indicou Jacques Le Goff, a memória, na qual cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir ao presente e ao futuro. Devemos trabalhar de forma que a memória coletiva sirva para a libertação e não para a servidão dos homens. Essa é também uma das experiências do PT que é alargada e fortalecida por sua Escola.